7 de julho de 2017

Obrigada

Sabe, amor, aqui dentro tudo é bagunçaconfusão e caos. Durante longos anos eu estive perdida. Perdi a essência do que sou e já estava conformada com a ideia de que nunca voltaria a me encontrar. 
Tenho medo do escuro. Você sabe. Tenho medo de todo o infinito que cabe nessa falta de luz, pois a minha também se encontra apagada. Sou frágil. Você sabe. Estou sempre coberta de hematomas, os quais nem sei de onde surgiram. Sou desastrada. Você sabe. Tropeço em meus próprios pés, dou de cara com a porta, caio sem explicações. 
Sou um caos. Você sabe.  
Sou confusa, inconstante e um tanto quanto complicada. 
E você sabe. Você sempre soube. 
Você foi capaz de enxergar toda essa bagagem caótica que carrego, sem que eu precisasse sentar e contar com lágrimas nos olhos toda a dor que esse peso é para mim. Você apenas olhou e me ofereceu o ombro.  
Dividi a carga contigo e segui caminhando ao seu lado. Sua luz iluminando nossos passos e o silêncio cantando com as mais belas palavras. 

13 de abril de 2017

Faça um pedido

Desvio o caminho para tua casa e passo no posto, com o dinheiro contado para a gasolina do resto da semana e seu maço de cigarro. Paro o carro e peço ao frentista "60 reais de gasolina, por favor, comum", aviso que é no cartão, pego a comanda e me dirijo ao caixa da conveniência. O vento gelado bate em minha barriga desnuda e sobe pelo corpo todo, me causando arrepio. Enrolo o cachecol no pescoço e entro na loja, sorrindo para a moça atrás do balcão. Entrego a comanda e solicito um Lucky Strike verde, mas está em falta. A ansiedade segurou minha mão nessa hora e me desorientou um pouco, mas consegui focar a atenção ao que a moça dizia. Encarei todas as carteiras de cigarro dispostas no painel atrás do caixa, repassei na mente o valor do saldo no banco, os preços de cada cigarro e acabei me decidindo pelo Lucky Strike azul. Digito a senha na máquina de cartão, ansiando por uma mensagem de "transação aprovada". O valor passou e o alivio veio. Guardei o cartão de novo na carteira, desastradamente, e peguei o cigarro de cima do balcão, depois de a atendente me lembrar dele. 
Volto para o carro, sentindo os olhares pararem em meu corpo e enrolo ainda mais o cachecol. Ando depressa, querendo logo o aconchego do ar quente ligado. Devolvo a comanda ao frentista, agradeço, ligo o carro e faço a manobra, novamente à caminho da sua casa. Te mando um áudio dizendo que devo chegar em 10 minutos. Não te avisei sobre o cigarro. Queria te fazer um agrado. 
O coração acelera ao estacionar em frente ao portão e você abri-lo para mim. Te dou um beijo tímido e um abraço rápido. Entramos. Você estava assistindo mais um daqueles programas de carro que tanto gosta. Aviso que vou guardar as coisas no quarto e você me pergunta se prefere ficar na sala ou subir, e eu respondo "você que sabe", desejando que você queira ir logo para a cama comigo. Subimos as escadas juntos, coloco minhas coisas no canto do quarto e começo a tirar a roupa. A calça está me apertando e quero colocar logo um short confortável. Você senta meio atravessado na cama, com as costas apoiadas na janela e fuma o cigarro que te entreguei.  
Ansioso, pede para que eu abra meu presente (meu aniversário é em poucas horas). Tento te tranquilizar em meio aos vários pedidos de desculpas, por não poder ter me dado nada melhor por falta de dinheiro. Do lado de fora do pacote tem uma carta feita com as folhas do bloco de anotações que lhe dei de presente. Na carta, o poema que escreveu em nosso primeiro encontro e que usou como forma de me manipular naquela noite, duas semanas antes. Relembro todos os momentos daquele dia. O nervoso por não saber o que fazer por ter você ao meu lado, o choque de quando finalmente nos tocamos, o beijo roubado no escuro, o colo seguro naquele tapete-asfalto 
A carta termina com um pedido e quatro opções de respostas. Assinalo todas elas mentalmente, sem conseguir disfarçar o sorriso em meu rosto. Te encho de beijos e sinto meu peito aquecer. Te amei naquele instante, e não foi pouco.  
Abro o pacote e vejo o restante dos presentes que você me deu. Um pacote de wafer para quando eu estiver chata de fome, uma pulseira com uma pedra de onix que você mesmo fez e um esmalte da minha cor favorita. Nisso tudo, nossas piadas internas. Não soube direito como agradecer. Tudo tão perfeito e tudo tão valioso. Voltei a te encher de beijos. 
Me aconcheguei em teu peito e passamos a noite conversando. Quando a meia-noite chegou, fiz meu pedido secreto aos céus, desejando outros momentos como esse.  
Não te disse antes, mas essa foi a noite mais feliz da minha vida. Obrigada por tudo.

11 de abril de 2017

Intro a la felicidad

Esse é mais um daqueles textos no qual sei que chegarei ao fim sem ter gostado do resultado, pois quando se trata de textos felizes, nunca sinto que dei o melhor de mim neles. A felicidade é algo com o qual não sei trabalhar, me tira da zona de conforto e me deixa inquieta. Sinto-me aconchegada na melancolia e na dor das palavras, então quando o desafio é escrever algo alegre, elas fogem, misturam-se, tornam-se uma confusão na minha mente. Preciso pescá-las no enorme abismo que é minha cabeça, juntá-las e tentar formar algo belo com isso, sem deixar que a tristeza se aproxime e tome conta dos pensamentos e sejam transcritas através de meus dedos nesse teclado. 
Estou vendo que a narrativa ficará confusa, mas é que eu já me perdi na confusão minutos atrás. Uma pessoa especial me disse que o meu problema com esses textos na realidade não é a felicidade e sim a inaptidão com as palavras para expressar esse sentimento. Ela está certa, é claro. Depois de anos escrevendo e revivendo a tristeza e seus diversos sinônimos, me sinto uma penetra nessa casa de bons sentimentos. Mas desafios são desafios e não sou de recusá-los. 
Começo devagar, timidamente, e aos poucos quem sabe tomo gosto por isso. Escrever é parte do que sou, e ser feliz é quem sou no momento, então darei um jeito de conciliar as duas coisas e tentar me enturmar nessa festa louca. 

6 de abril de 2017

Reaja

- Vodca, sem gelo ou limão. Quem sabe uma raiz forte misturada, amarga. Sim, com raiz forte - dizia abrindo aquele sorriso amarelo resultante de cigarros vagabundos e bebidas amargas, que julgava serem capazes de amenizar o vazio. Sentado escondido numa mesa ao fundo de um barzinho de esquina, roía as unhas já tão curtas e escuras, amareladas pelo cigarro, enquanto esperava a atendente sob seu uniformizado micro-vestido. Imaginou-se em seu lugar, trabalhando noite após noite naquele recinto apertado, abafado, mofado. Seria ela uma moça paciente, levando em conta os desaforos que levara para casa durante todo o tempo. Homens suados, safados, zangados. Mulheres suadas, safadas, zangadas. Ambos alterados depois de um longo dia de trabalho e centenas de copos de cerveja virados um logo atrás do outro. Perguntou-se, - o que ela ainda faz aqui? e tentou procurar uma resposta, porém, em vão. Perguntarei a ela, pensou um pouco alto demais, o que só percebeu ao vê-la em sua frente, com sua garrafa de vodca e copinho de plástico. - O que tens a perguntar, senhor? - abria agilmente a garrafa, passando o líquido transparente de um recipiente para o outro. Fixou o olhar em algum ponto entre o rótulo estampado no vidro e os seios à mostra da quase mulher. - O que ainda fazes aqui? Quer dizer, sem ser grosseiro nem nada. Curiosidade, apenas. Por que trabalhas aqui? - Futuro, senhor. Apenas pelo futuro. - E o que tens o futuro? - É imprevisível mesmo planejado, sonhado. - E onde isso se encaixa na razão de trabalhaste neste lugar? - No simples fato de o futuro começar aqui, no próximo segundo. Não sabes tu que o futuro chega rápido e assim sem avisar? Pode-se dizer que por este motivo continuo neste barzinho de esquina. Não entendeste onde quero chegar, não és? Com uma curta e rápida balançada da cabeça confirma, não entendera nada. - Ouça. O futuro é imprevisível, como disse antes. E aqui - abre os braços, mostrando toda a extensão do aqui, - é onde aprendo a maneira correta de lidar com o sofrimento futuro que sei que há de vir. E sei que virá, pois é ele quem está presente em cada canto deste cubículo. O sofrimento, digo. E aqui, agora, ele está consumindo as almas perdidas, entregadas, soltas ao relento. Almas como a tua, a dele, a dela, a de vós. Almas sujas, sofridas, rasgadas, amassadas, abandonadas. Amareladas como estes teus dedos que tentas esconder agora e amargas como este teu copo plástico cheio de vodca e raiz forte. Almas sem sonhos e sem esperanças. E sabes o que ainda faço aqui? Procuro a solução para o problema de vós, para que no futuro, que estás a bater na porta neste momento, eu saiba o que fazer com os meus. Meus problemas, digo. Problemas que tentarão roubar minh’alma e apodrecê-la como a tua, agora. E se me permite, quero pedir-te que faças como tenho feito, que busques a liberdade, que sejas, mais uma vez, uma alma completa e livre como um pássaro.
De dentro do bolso do vestido retirou uma caderneta, anotando uma frase qualquer e entregando o pedaço de papel para o homem que se encontrava de olhos vidrados, com seu sorriso amarelo e coração adocicado por palavras duras e amargas.
Então se foi. “As pessoas se transformam em cadáveres decompostos à minha frente, nessas noites que não terminam nunca. Então reaja, porque este mundo precisa de ti.” - frase adaptada de Caio Fernando Abreu.