4 de janeiro de 2011

Além da eternidade

Acabei de acordar e me arrumei de um modo que ela sempre dizia que gostava, peguei a chave do carro e fui para sua casa, acordá-la com beijinhos como eu sempre fazia no domingo. No caminho passei na floricultura e comprei flores, rosas vermelhas, que simbolizam ainda mais o amor que sinto, coloquei-as no banco ao lado e continuei o caminho até meu destino.
Era dia 14, fazia exatos um ano e três meses que eu havia pedido ela em namoro e recebi um sim como resposta. Eu estava com saudade, afinal, além de ser nosso aniversário de namoro, tinha mais de uma semana que eu não á via. Tudo o que eu queria era vê-la deitada em sua cama, dormindo linda como sempre, e abraçá-la e beijá-la.
Cada segundo parecia um século, acelerei um pouco mais, agora faltava pouco, eram apenas alguns minutos. Enquanto o tempo não passava e a distância que nos separava diminuía, eu fazia planos para nossas próximas décadas juntos, era tudo tão perfeito, e pensando nisso tudo, cheguei. Estacionei o carro de modo que não ficasse na frente do portão, já que o pai dela não gostava muito quando eu fazia isso, peguei as rosas, abri a porta do carro e fui em direção a casa. Meu coração estava acelerado, até parecia que era o nosso primeiro encontro.
Cumprimentei seus pais e fui ao seu quarto, e como eu imaginava, ela estava ali deitada, dormindo como um anjo. Deixei as flores na mesinha ao lado e sentei na cama, beijando seu rosto e acariciando-a. Ela acordou e me olhou com seus lindos olhos verdes, fitei-os por segundos seguidos, até que ela voltou a fechá-los e abri-los repetidamente. Sentou também e me beijou, disse que iria ao banheiro e que logo voltava, tinha algo sério para falar comigo.
Meus pensamentos dispararam em milhões de assuntos sérios que poderiam ser. E o ruim disso, é que 99% eram somente de coisas horríveis. Será que ela me ama ainda? Será que ela quer terminar comigo? Será que não sou do jeito que ela deseja? Qual o problema? Eu tinha que saber o quanto antes, queria resolver logo.
Fiquei inquieto, sentado em sua cama, até que ela voltou ainda mais linda, porém, com um olhar mais tenso. Percebi na hora que era uma das opções que havia pensado anteriormente.
Ela sentou, olhou fixamente em meus olhos e disse:

- Sabe, já não é mais como antes.
- O que não é como antes? – perguntei. – Me conte.
- O nosso namoro não é como antes, o que eu sinto não é como antes, nada é como antes. Entende?
- Não, eu não entendo – eu disse. – Você não me ama mais, é isso? Eu não sou o namorado que você deseja?
- Sim, e não – ela respondeu.
- Como assim? Ou é sim ou é não, não é? – eu disse, confuso.
- Não, não é. Eu quis dizer, sim, eu não te amo mais. E não, você é sim o namorado que eu desejava, mas não é o mesmo que eu quero ficar pelo resto da vida. Eu tenho outros planos, sabe?
Aquelas palavras ecoavam dentro da minha cabeça, parecia que não tinha mais chão sob meus pés. Como ela podia ter deixado de me amar? Eu á amo.
- Eu não sei. Que planos são esses que você fala? Você ama outro, é isso?
- Eu quero ser livre, não fui feita para me prender a uma única pessoa. Eu quero ser do mundo e ter o mesmo só para mim. Eu quero a minha liberdade! – ao ouvir isso saindo de sua boca, aquela que foi minha por tanto tempo, me senti traído. Ela já devia ter outros enquanto esteve comigo. Eu tinha que sair dali o quanto antes, caso contrário, não sei o que seria de mim. Eu não podia continuar ali olhando para ela, depois de saber que eu não era o único da vida dela, que eu não era mais nada para ela.
Não olhei nos seus olhos ao sair, apanhei as flores na mesinha, bati a porta com um pouco de força e fui para meu carro. Abri a porta, joguei as flores com raiva no banco de trás, entrei e bati a porta com ainda mais força. Acelerei como jamais havia acelerado em toda minha vida, tinha que ser essa a forma de esquecer tudo pelo menos agora. Mas não adiantou muito. Em minha mente só tinha imagens dela com um desconhecido, eles se beijavam, e eu sangrava e morria por dentro.
Balancei a cabeça com força tentando dissipar aquela imagem inútil, tentando me controlar e controlar a raiva que aos poucos iam se espalhando em minhas veias.
Ainda restava uma dúvida. Será que ela havia realmente me traído assim como eu pensava? Tinha que resolver isso agora. Ainda dirigindo, peguei o celular em meu bolso e disquei seu número. Cada toque era seguido de uma batida de meu coração, me agonizando. Do outro lado ela atende.
- Alô?
- Oi, sou eu. Posso te fazer uma pergunta?
- Ah, é você. O que quer?
- Seja sincera. Você já me traiu? – perguntei, com o coração agora saltando pela boca.
- Isso importa pra você?
- Claro que importa. Preciso saber se suas promessas foram verdadeiras.
- Se é a verdade que você quer tudo bem. Eu devo ter te traído algumas vezes.
- Tudo bem, agora me sinto melhor. Você não cumpriu as promessas.
Ela ficou em silêncio, e lutando para terminar a ligação logo e falei.
- Saiba que mesmo não estando junto contigo, eu vou cumprir cada promessa que fiz – minha voz me traiu, eu já estava chorando.
Limpei meu rosto e lutei mais um pouco para terminar com aquilo o mais rápido possível.
- Eu te amo. Adeus.
Desliguei o celular, estava tremendo. Dirigindo com uma única mão, me virei para trás para pegar as flores que ainda estava ali. Lembrei-me da primeira vez em que dei rosas á ela, seus olhos brilhando e sua voz sussurrando em meu ouvido, dizendo que me amava. Lembrei também das promessas que fiz.
- Eu vou te amar para sempre meu amor, e só te esquecerei quando um dia eu morrer.
- Eu sempre vou estar ao seu lado.
- Você sempre será a única na minha vida.
- Meu coração sempre será seu.
E na verdade, essas promessas foram verdadeiras, eu realmente a amava, eu sempre iria estar ao seu lado, ela sempre seria a única da minha vida e meu coração sempre seria dela, tanto que na hora em que aquelas palavras foram penetrando em meu corpo e minha mente, meu coração foi se despedaçando.
Era agora o momento de cumprir minhas promessas e mostrá-la que era verdade tudo o que eu á disse.
Pisei ainda mais fundo no acelerador e fechei meus olhos. Queria que o momento de minha morte fosse com sua imagem eternizada em minha mente. Tirei as mãos do volante e comprimi as rosas sobre meu peito.
Senti uma luz forte me cegar, mesmo já estando com os olhos fechados, e ouvi um barulho alto parecido com buzina de caminhão. Apertei ainda mais os olhos ao mesmo tempo em que apertava a flor, e senti algo diferente.
Era como se eu estivesse sendo arremessado a milhões de quilômetros por hora, meu corpo doía muito, mas nada comparado à dor que senti ao ver minha alma sair de meu corpo ao ouvi-la dizer que não me queria mais.
A luz aumentou e na mesma hora a dor cessou. Eu não tinha as flores em minhas mãos, e era como se eu não tivesse mais corpo. Abri meus olhos e olhei para baixo, eu ainda tinha corpo, mas era mais como uma luz, um fantasma. Coloquei a mão em meu coração esperando sentir pulsá-lo, mas nada aconteceu, eu não tinha mais coração. Fechei os olhos novamente e desejei estar ao lado dela. Meu corpo-luz se contraiu e se expandiu, tudo ao mesmo tempo e alguns segundos depois parou. Abri os olhos e olhei para os lados, tentado reconhecer aquele lugar, e finalmente reconheci. Era o cemitério da cidade, e sobre um túmulo estava ela, o grande amor da minha vida. Aproximei-me e olhei que túmulo era aquele, não conhecia até então.
Se eu tivesse coração, ele agora estaria saindo de dento de mim, mas como não havia, continuei do mesmo modo. Li aquelas palavras mais algumas vezes, e sim, era meu nome. Eu finalmente estava morto.
Aproximei-me dela, e sentei ao seu lado. Ela tinha alguns papeis na mão, que aparentavam serem as cartas que mandei há tempos atrás. Olhei em seu rosto e pude ver que ela chorava. Senti um arrependimento por ter partido, ela ainda me amava. Ela mentiu para minha até mesmo no fim. Mas por que ela disse que não sentia o mesmo se ainda me amava? Por que ela fez aquilo comigo?
Eu senti que deveria ficar ao seu lado agora, já que prometi que sempre estaria ao seu lado. Ela só não iria saber que eu ainda continuaria ali após a morte como falei um dia. Ela não poderia me ver.
Eu a fiz mal quando parti, eu também parti seu coração como ela fez com o meu. Só que não posso deixá-la tentar o mesmo caminho que eu. Tenho que ficar aqui e fazer o possível para que ela continue a viver e cuidar de meu coração, já que eu estarei sempre cuidando dela. Até chegar sua vez de se juntar a mim.

--
Olá galera, voltei de viagem um pouco antes do previsto e aqui estou com a história que prometi.
Bom, é baseado na história de um amigo meu, com muito da minha imaginação. Espero que gostem.
P.S.: Ele não morreu de verdade gente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário