10 de janeiro de 2011

Serenidade à minha volta.

Uma vez me perguntaram: onde você vai quando está triste?
Hesitei na hora de responder, porque toda vez que eu contava qual era o lugar, a pessoa olhava como se estivesse conversando com uma louca ou algo do tipo.
Fiquei procurando em minha mente alguns lugares menos absurdos, e disse, sem muita convicção:
- Ãhn, fico no meu quarto mesmo.
- Você está mentido – disse a pessoa. – ou porque outro motivo você ficaria toda vermelha?
- Hum, é... Tá, eu estou mentindo – confessei.
- Então me diz, onde costuma ir?
Dessa vez eu estava perdida, tinha que contar a verdade já que não sabia como é que se mentia direito.
Suspirei e falei:
- Cemitério. É para lá que eu vou, meu querido cemitério!
Ela olhou fixamente em meus olhos e pude ver o inacreditável ali, ela não estava surpresa, somente me olhava, como se daquela forma fosse encontrar dentro de mim alguma resposta.
- Você não vai me chamar de louca? Anda, já me acostumei com isso – eu disse.
- Não, não vou – ela falou. - Eu te entendo.
- Como assim não vai? – perguntei, surpresa. – Você não está brincando comigo, está?
- Eu te entendo sim, não sou de fazer brincadeiras – respondeu ela. – Agora me conte mais uma coisa, por que é seu lugar favorito em dias ruins?
Eu não acreditei muito que ela estivesse dizendo a verdade, mas mesmo assim resolvi contar, afinal, eu tinha que confiar. Fechei os olhos, relembrei os motivos e disse:
- Eu tinha uns oito anos, não lembro bem, quando fui ao cemitério pela primeira vez. Foi alguns dias após a morte do meu avô. Eu não havia ido ao seu enterro pelo fato dele morar longe e meus pais não terem muito dinheiro naquela época para bancar uma viagem para cinco pessoas.
“Considero-o como meu único avô, já que nunca conheci o outro. Ele era, e ainda é, meu favorito em toda a família, assim como eu era/sou sua favorita. Sempre brincávamos quando ia visitá-lo, e sempre ganhava presentes dele. Meu avô era a essência da minha infância, e depois do dia que ele partiu para uma nova vida, minha infância se foi também.
“Na primeira vez em que fui até ao cemitério, ao colocar meus pés lá dentro, senti um tremor e um calor bom passar por meu corpo. Senti-me feliz. Era como se pudesse sentir a presença do meu avô ali, ao meu lado, cuidando de mim. Agi por instinto, e corri até o final do corredor central, e encontrei uma espécie de túmulo branco e grande, mas sem a presença de corpos ali, sentei em cima e olhei na direção do sol.
“Lá em baixo, atrás do cemitério, tinha a rodovia cheia de carros passando a alta velocidade e no horizonte, o sol começava a se pôr, iluminando o céu de um rosa alaranjado. Olhei ao redor, para conhecer melhor aquele lugar, e vi ao longe uma pessoa. Bom, não era exatamente uma pessoa, porque quando corri até lá, não havia ninguém. Saí então à procura da pessoa que eu vi, e nada.

“Cansei de procurar e voltei para o lugar onde estava antes. Sentei novamente e olhei para o lado. Havia agora, um pedaço de papel dobrado ao meio. Peguei o papel entre os dedos e abri-o. Era um bilhete, e era estranho, pois era direcionado a mim. Estava escrito bem assim:
“’Eu não parti, apenas deixei de ser visível a muitos olhos.
Estarei aqui sempre que precisar, minha princesinha. ‘“
Comecei a chorar nessa parte da história, eu me lembrava exatamente como foi que tudo aconteceu e a emoção que passou por mim. Por mais que tudo parecesse estranho naquele momento, eu me sentia feliz e não com medo. Meu avô estava ali, estava perto de mim.
- Você... quer continuar contando? – ela perguntou. – Vou entender caso não queira.
Eu tinha fugido totalmente a realidade, e somente agora percebi que estava contando minha história para alguém. Então me concentrei e tentei terminar.
- Tudo bem, eu vou terminar de te contar. Então, voltando de onde parei: “eu li aquele bilhete e senti realmente a presença dele ali, ao meu lado, e comecei a chorar de felicidade, afinal, ele não tinha ido para longe como todos me diziam. Olhei para o lugar ao lado de onde estava o bilhete, sem ver ninguém, apenas sentindo, e perguntei: ‘Você sempre vai estar aqui quando eu vier? ’
“Fechei meus olhos, não sabia o que podia acontecer, foi aí que ouvi. Ele estava sussurrando em meu ouvido e dizia: ‘Sim minha querida, sempre estarei aqui te esperando. E agora já é tarde não acha? Seus pais vão ficar preocupados. ’ Aquelas palavras fizeram tudo a minha volta girar, como é que eu podia ter esquecido que não estava em casa? Que meus pais estariam me procurando nesse momento?
“Olhei para o lugar mais uma vez e disse: ‘ eu volto logo vovô, e quero vê-lo da próxima vez. É melhor eu ir mesmo não é? Eu te amo muito vovô. ’ Peguei o bilhete e guardei no bolso de minha calça, fechei os olhos tentando imaginar ele ali e mandei um beijo. De olhos fechados pude ver a imagem dele sorrindo e me mandando outro beijo. Abri os olhos e corri para a saída do cemitério.
“Desde então, quando estou triste ou feliz demais, sempre vou lá para desabafar. Já posso vê-lo, assim como pedi, e ele continua como sempre. Só que agora, mais feliz, assim como eu.”
Passou-se um minuto de silêncio, assim como fazem quando alguém morre e querem homenageá-lo, e a pessoa que havia me perguntado sobre meu lugar favorito quebrou o silêncio e disse:
- Sua história é idêntica a minha, é por esse motivo que te entendo.

Pauta para o Projeto Bloínquês, 51ª Edição Musical.


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P.S.: Bom, essa história é mais que algo feito para um "concurso", é minha vida e minha história. Espero que gostem.

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