15 de junho de 2014

Tarde de inverno


Está muito frio essa tarde, 8º segundo o aplicativo do celular, e estou congelando. Liz resolveu que tínhamos de aproveitar os últimos dias no sul e para isso deveríamos sair de casa. Fomos ao cinema mais cedo, e para onde vamos agora é uma incógnita para mim. 
Essa moça é meio agitada, credo. Talvez seja por conta dos anos longe da cidade. Olho para ela, usando apenas um vestido de lã e um sobretudo por cima, e juro, não sei como ela aguenta esse frio. 
Ela agarra minha mão e me arrasta por mais uma rua. Já foram três, desde que saímos do shopping. 
Uma quadra depois chegamos a uma praça cheia de barraca de feira. Ela vira para mim. Posso ver o brilho em seu olhar e as bochechas vermelhas. "Está com frio", penso. Passo um braço em volta de sua cintura, dou um beijo em sua bochecha e vejo-a sorrir.
- Vem, Tom. Vamos tomar algo quente - ela diz, me puxando para uma das barracas mais ao fundo da praça.
Paramos em uma delas e Liz pede quentão com porção de pinhão. Penso "poderia ser batata frita", mas não digo nada. Dois minutos depois o atendente aparece com o nosso pedido. Pego as bebidas e espero Liz me guiar. Ela pega a porção e vai na frente, conduzindo-nos até um dos bancos da praça.
- Então, Tom - ela diz, roubando um dos copos e sorrindo. - O que está achando do frio?
- Sacanagem, Liz, me tirar de casa logo hoje - digo, percebendo a fumaça quente que sai da minha boca.
- Sacanagem nada. No fim do dia você vai implorar para repetirmos - ela sorri, maliciosa.
Retribuo o sorriso e tomo um gole da minha bebida.
- Caralho! - xingo, colocando a língua queimada para fora.
Liz solta uma risada e se aproxima, lascando uma mordida na ponta da língua. Afasto-me, fazendo cara feia para ela, ao que responde com um beijo quente e doce.
- Eu te amo, bobo - sorrio quando ela sussurra essas palavras entre um beijo e outro.
- E eu te amo mais, bobona.

5 de junho de 2014

Moça do batom vermelho


- O que foi? - pergunta, vermelha, desviando o olhar para o outro lado do quarto.
- Nada. - respondo, sorrindo.
Continuo a observando, mesmo sabendo o quanto odeia quando faço isso. Perco-me em pensamentos entre uma pinta e outra de seu rosto.
- Pare. - ela sussurra, com aquela voz cheia de vergonha.
Aproximo-me de seu rosto e o seguro entre as mãos, pousando o polegar direito sobre minha pinta favorita, logo abaixo dos olhos. Fixo o olhar no dela e sorrio. Suas bochechas voltam à cor normal e formam duas bolinhas fofas quando retribui o sorriso.
- Você é linda.
Ela tenta desviar o rosto novamente, mas seguro firmo. Deslizo minha mão esquerda até seu braço, pouco abaixo do cotovelo, e contorno de leve os traços da tatuagem que fizemos há pouco tempo.
- Está vendo estas linhas? - pergunto, trazendo meu braço esquerdo para junto do dela. - Cada uma dessas linhas representa uma promessa que te fiz, e enquanto elas estiverem em minha pele, significa que as estarei honrando. Seja contigo aqui comigo, ou do outro lado do país, junto de seus pais. Sei dos sacrifícios que fez por mim e sou muito grato pela chance que ti me deu, de poder mostrar o quanto a amo e o quanto podemos ser felizes juntos. Soube desde àquelas nossas conversas aos dezesseis anos que ti seria alguém importante para mim, e quando foi embora, não sabia o que fazer. Fui apaixonado por ti durante um longo tempo e nunca cheguei a contar. - fiz uma pausa, relembrando o quão difícil foi ver essa moça partir sem que eu pudesse fazer nada.
- Se aos dezesseis anos me apaixonei por ti - continuei, - imagine o quanto foi fácil me apaixonar novamente quando voltou, dois anos depois. Tudo aconteceu tão rápido depois disso e acabamos descobrindo que esse é o nosso ritmo. - ela sorri. Acredito que esteja lembrando como, em seis meses, tínhamos um relacionamento mais íntimo que qualquer outro de anos. - Quem diria que hoje estaríamos aqui? Às vezes, deitado, depois de fazê-la dormir, fico pensando no nosso relacionamento e, deuses, agradeço todos os dias por você ter voltado. Faz ideia do quanto você é incrível, garota? Você mexe comigo de uma forma que não sei nem descrever. Nunca tive planos nos quais alguma pessoa estivesse incluída e veja agora, você está em todos eles. Você é parte da minha vida, moça do batom vermelho.
Ela sorri daquele jeito meigo e me abraça, aninhando a cabeça em meu peito. Esse abraço vale mais que mil palavras, pois dá para sentir o amor que emana do corpo dela, passando ao meu. Desde o começo eu soube que ela preferia demonstrar o que sentia com gestos, e acho isso lindo. Ela dizia "sou desajeita com as palavras, moço".
Ficamos nesse abraço por vários minutos, até sermos interrompidos por seu estômago reclamando de fome.
- Venha - digo, passando o braço por seu pescoço e puxando-a em direção à cozinha, - vamos preparar algo para a senhora faminta.
Ela se solta dos meus braços e faz cara de brava, como se a tivesse ofendido.
- Sei me virar sozinha, besta. - ela diz, caminhando até a cozinha, sem parar de rir.
Fico parado por uns segundos, admirando o quanto ela fica linda vestida com minha camiseta velha, e penso: Deuses, amo demais essa menina.