23 de janeiro de 2017

Silence

Estou sentada no canto do quarto, encolhida e com a cabeça apoiada em meus joelhos. Minha coluna começa a reclamar. O silencio no ambiente é absoluto e perturbador. Se me perguntassem há quanto tempo estou presa nessa quietude, não saberei dizer. Pode ser minutos ou talvez dias. Minha cabeça lateja com todas as pancadas dos pensamentos soltos dentro. O quarto é silencioso, mas a mente é barulhenta demais. Tento, em vão, não pensar em nada, mas quanto mais tento mais os pensamentos me invadem, me batem, me expulsam. Não pertenço mais a mim mesma. Abriram a porta e me chutaram para fora, e agora tudo que posso fazer é espiar pela janela. A briga ali é enorme. A razão presa nos braços do sentimento, com os olhos roxos e braços arranhados. É sufocante observar a cena. Sempre odiei brigas e nesse momento tudo que faço é olhar atentamente àquela luta, paralisada demais para poder fazer qualquer outra coisa. O nó na garganta é gigantesco e meu corpo parece pregado ao chão. Lágrimas escorrem por meu rosto, fazendo uma trilha morna em minha pele fria. Fecho os olhos e tento me concentrar nas batidas do coração, tentando, quem sabe, retomar o controle de minha mente. Falho uma dezena de vezes. A dor toma conta de todo meu corpo e sinto o desespero brotar sob minha pele. A angústia é gigantesca. Sinto que ficarei presa eternamente em meio ao caos que é essa cena. Quando finalmente desisto de tentar lutar contra essa mistura esgotante de sentimentos e sensações, sou tirada do transe pela batida na porta. Desperto, com a cabeça mais pesada que o mundo, e volto à realidade. 

13 de janeiro de 2017

Lembranças de um agosto passado

Fotos de um passado belo espalhadas sobre a mesa espelhada do quarto. Cartas amareladas pelas xícaras e mais xícaras de café largadas pelos cantos. Um rosto maltratado e pálido refletido no vidro retangular. Olhos claros bem marcados pelas noites seguidas de sono perdido. No rádio o cd, riscado num trecho da faixa preferida daquele álbum, tocava incansavelmente.

Abria gaveta por gaveta, procurando pelos sentimentos mantidos ali por tanto tempo. Na cabeça, a última frase dita parecia estar pregada. “Não dá mais”. Na terceira gaveta da cômoda encontrou jornais velhos manchados de um vermelho já em tom de marrom, e logo abaixo, agulhas, lâminas, compassos. Lembranças já apagadas, já superadas. Lembranças de um agosto passado.


Com um café setembrino nas mãos, gelado e amargo, abriu levemente as cortinas negras que escureciam o quarto. O sol escondia-se já no horizonte, tingindo o céu com suas luzes alaranjadas.


A música recomeçou, trazendo mais uma vez sensações que há tanto aprendera a bloquear. O vento de fim de tarde entrava pela janela eriçando os pelos dos braços nus. Desconforto físico não era nada comparado ao desconforto emocional que sentia por dentro. Desconforto não, dor.


Escolheu algumas cartas e fotos ao acaso e sentou na cama de lençol amarrotado, tomando um gole a mais de seu café frio. Lia palavra por palavra, dando um, dois, três significados para cada frase. Linhas e entrelinhas, todas sendo investigadas. Procurava por sentimentos reais, verdadeiros. Não os encontrou.


Diria no futuro que aquele foi um momento de fraqueza, mas sabia, no fundo, que foi naquele instante que se tornou forte. Mesmo com a raiva a lhe brotar sob a pele, segurou-se. Chocada contra a parede, a xícara virou estilhaços e seu conteúdo maculou o branco puro e cru. Gargalhou até que seus olhos liberassem gotas e mais gotas de lágrimas sofridas. E ficou ali, naquela névoa mista de dor e saudade.

Dançando tango em meio à solidão

Tu disseste que desgraçaria meu psicológico
E eu, por inocência ou teimosia
(ou ambos, quem sabe),
Deixei a porta aberta.


Mas não foi o suficiente.


Monstro como tu és, não apenas passou pela mesma.
Tirou-a do batente, levando consigo as dobradiças.
Quebrou os vidros da janela,
Rasgou o tecido do sofá
E maculou o branco de minhas paredes recém pintadas.


Ainda assim, não foi o suficiente.


Deixaste-me perdida em meio ao caos
E partiste, como se nunca ali estivera.
Mas a bagunça ficou em teu lugar,
Fazendo-me companhia na escuridão,
Dançando tango em meio à solidão.