13 de janeiro de 2017

Lembranças de um agosto passado

Fotos de um passado belo espalhadas sobre a mesa espelhada do quarto. Cartas amareladas pelas xícaras e mais xícaras de café largadas pelos cantos. Um rosto maltratado e pálido refletido no vidro retangular. Olhos claros bem marcados pelas noites seguidas de sono perdido. No rádio o cd, riscado num trecho da faixa preferida daquele álbum, tocava incansavelmente.

Abria gaveta por gaveta, procurando pelos sentimentos mantidos ali por tanto tempo. Na cabeça, a última frase dita parecia estar pregada. “Não dá mais”. Na terceira gaveta da cômoda encontrou jornais velhos manchados de um vermelho já em tom de marrom, e logo abaixo, agulhas, lâminas, compassos. Lembranças já apagadas, já superadas. Lembranças de um agosto passado.


Com um café setembrino nas mãos, gelado e amargo, abriu levemente as cortinas negras que escureciam o quarto. O sol escondia-se já no horizonte, tingindo o céu com suas luzes alaranjadas.


A música recomeçou, trazendo mais uma vez sensações que há tanto aprendera a bloquear. O vento de fim de tarde entrava pela janela eriçando os pelos dos braços nus. Desconforto físico não era nada comparado ao desconforto emocional que sentia por dentro. Desconforto não, dor.


Escolheu algumas cartas e fotos ao acaso e sentou na cama de lençol amarrotado, tomando um gole a mais de seu café frio. Lia palavra por palavra, dando um, dois, três significados para cada frase. Linhas e entrelinhas, todas sendo investigadas. Procurava por sentimentos reais, verdadeiros. Não os encontrou.


Diria no futuro que aquele foi um momento de fraqueza, mas sabia, no fundo, que foi naquele instante que se tornou forte. Mesmo com a raiva a lhe brotar sob a pele, segurou-se. Chocada contra a parede, a xícara virou estilhaços e seu conteúdo maculou o branco puro e cru. Gargalhou até que seus olhos liberassem gotas e mais gotas de lágrimas sofridas. E ficou ali, naquela névoa mista de dor e saudade.

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