13 de abril de 2017

Faça um pedido

Desvio o caminho para tua casa e passo no posto, com o dinheiro contado para a gasolina do resto da semana e seu maço de cigarro. Paro o carro e peço ao frentista "60 reais de gasolina, por favor, comum", aviso que é no cartão, pego a comanda e me dirijo ao caixa da conveniência. O vento gelado bate em minha barriga desnuda e sobe pelo corpo todo, me causando arrepio. Enrolo o cachecol no pescoço e entro na loja, sorrindo para a moça atrás do balcão. Entrego a comanda e solicito um Lucky Strike verde, mas está em falta. A ansiedade segurou minha mão nessa hora e me desorientou um pouco, mas consegui focar a atenção ao que a moça dizia. Encarei todas as carteiras de cigarro dispostas no painel atrás do caixa, repassei na mente o valor do saldo no banco, os preços de cada cigarro e acabei me decidindo pelo Lucky Strike azul. Digito a senha na máquina de cartão, ansiando por uma mensagem de "transação aprovada". O valor passou e o alivio veio. Guardei o cartão de novo na carteira, desastradamente, e peguei o cigarro de cima do balcão, depois de a atendente me lembrar dele. 
Volto para o carro, sentindo os olhares pararem em meu corpo e enrolo ainda mais o cachecol. Ando depressa, querendo logo o aconchego do ar quente ligado. Devolvo a comanda ao frentista, agradeço, ligo o carro e faço a manobra, novamente à caminho da sua casa. Te mando um áudio dizendo que devo chegar em 10 minutos. Não te avisei sobre o cigarro. Queria te fazer um agrado. 
O coração acelera ao estacionar em frente ao portão e você abri-lo para mim. Te dou um beijo tímido e um abraço rápido. Entramos. Você estava assistindo mais um daqueles programas de carro que tanto gosta. Aviso que vou guardar as coisas no quarto e você me pergunta se prefere ficar na sala ou subir, e eu respondo "você que sabe", desejando que você queira ir logo para a cama comigo. Subimos as escadas juntos, coloco minhas coisas no canto do quarto e começo a tirar a roupa. A calça está me apertando e quero colocar logo um short confortável. Você senta meio atravessado na cama, com as costas apoiadas na janela e fuma o cigarro que te entreguei.  
Ansioso, pede para que eu abra meu presente (meu aniversário é em poucas horas). Tento te tranquilizar em meio aos vários pedidos de desculpas, por não poder ter me dado nada melhor por falta de dinheiro. Do lado de fora do pacote tem uma carta feita com as folhas do bloco de anotações que lhe dei de presente. Na carta, o poema que escreveu em nosso primeiro encontro e que usou como forma de me manipular naquela noite, duas semanas antes. Relembro todos os momentos daquele dia. O nervoso por não saber o que fazer por ter você ao meu lado, o choque de quando finalmente nos tocamos, o beijo roubado no escuro, o colo seguro naquele tapete-asfalto 
A carta termina com um pedido e quatro opções de respostas. Assinalo todas elas mentalmente, sem conseguir disfarçar o sorriso em meu rosto. Te encho de beijos e sinto meu peito aquecer. Te amei naquele instante, e não foi pouco.  
Abro o pacote e vejo o restante dos presentes que você me deu. Um pacote de wafer para quando eu estiver chata de fome, uma pulseira com uma pedra de onix que você mesmo fez e um esmalte da minha cor favorita. Nisso tudo, nossas piadas internas. Não soube direito como agradecer. Tudo tão perfeito e tudo tão valioso. Voltei a te encher de beijos. 
Me aconcheguei em teu peito e passamos a noite conversando. Quando a meia-noite chegou, fiz meu pedido secreto aos céus, desejando outros momentos como esse.  
Não te disse antes, mas essa foi a noite mais feliz da minha vida. Obrigada por tudo.

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