6 de abril de 2017

Reaja

- Vodca, sem gelo ou limão. Quem sabe uma raiz forte misturada, amarga. Sim, com raiz forte - dizia abrindo aquele sorriso amarelo resultante de cigarros vagabundos e bebidas amargas, que julgava serem capazes de amenizar o vazio. Sentado escondido numa mesa ao fundo de um barzinho de esquina, roía as unhas já tão curtas e escuras, amareladas pelo cigarro, enquanto esperava a atendente sob seu uniformizado micro-vestido. Imaginou-se em seu lugar, trabalhando noite após noite naquele recinto apertado, abafado, mofado. Seria ela uma moça paciente, levando em conta os desaforos que levara para casa durante todo o tempo. Homens suados, safados, zangados. Mulheres suadas, safadas, zangadas. Ambos alterados depois de um longo dia de trabalho e centenas de copos de cerveja virados um logo atrás do outro. Perguntou-se, - o que ela ainda faz aqui? e tentou procurar uma resposta, porém, em vão. Perguntarei a ela, pensou um pouco alto demais, o que só percebeu ao vê-la em sua frente, com sua garrafa de vodca e copinho de plástico. - O que tens a perguntar, senhor? - abria agilmente a garrafa, passando o líquido transparente de um recipiente para o outro. Fixou o olhar em algum ponto entre o rótulo estampado no vidro e os seios à mostra da quase mulher. - O que ainda fazes aqui? Quer dizer, sem ser grosseiro nem nada. Curiosidade, apenas. Por que trabalhas aqui? - Futuro, senhor. Apenas pelo futuro. - E o que tens o futuro? - É imprevisível mesmo planejado, sonhado. - E onde isso se encaixa na razão de trabalhaste neste lugar? - No simples fato de o futuro começar aqui, no próximo segundo. Não sabes tu que o futuro chega rápido e assim sem avisar? Pode-se dizer que por este motivo continuo neste barzinho de esquina. Não entendeste onde quero chegar, não és? Com uma curta e rápida balançada da cabeça confirma, não entendera nada. - Ouça. O futuro é imprevisível, como disse antes. E aqui - abre os braços, mostrando toda a extensão do aqui, - é onde aprendo a maneira correta de lidar com o sofrimento futuro que sei que há de vir. E sei que virá, pois é ele quem está presente em cada canto deste cubículo. O sofrimento, digo. E aqui, agora, ele está consumindo as almas perdidas, entregadas, soltas ao relento. Almas como a tua, a dele, a dela, a de vós. Almas sujas, sofridas, rasgadas, amassadas, abandonadas. Amareladas como estes teus dedos que tentas esconder agora e amargas como este teu copo plástico cheio de vodca e raiz forte. Almas sem sonhos e sem esperanças. E sabes o que ainda faço aqui? Procuro a solução para o problema de vós, para que no futuro, que estás a bater na porta neste momento, eu saiba o que fazer com os meus. Meus problemas, digo. Problemas que tentarão roubar minh’alma e apodrecê-la como a tua, agora. E se me permite, quero pedir-te que faças como tenho feito, que busques a liberdade, que sejas, mais uma vez, uma alma completa e livre como um pássaro.
De dentro do bolso do vestido retirou uma caderneta, anotando uma frase qualquer e entregando o pedaço de papel para o homem que se encontrava de olhos vidrados, com seu sorriso amarelo e coração adocicado por palavras duras e amargas.
Então se foi. “As pessoas se transformam em cadáveres decompostos à minha frente, nessas noites que não terminam nunca. Então reaja, porque este mundo precisa de ti.” - frase adaptada de Caio Fernando Abreu.

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